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'Novela das Frutas' levanta debates sobre limites do entretenimento

A “novela das frutas”, fenômeno recente entre conteúdos nas redes sociais, tem chamado atenção não apenas pelo alcance, mas também pelas críticas relacionadas à forma como seus personagens são construídos. Inspirada em narrativas curtas, dinâmicas e de fácil consumo, a produção aposta em arquétipos marcados o que, pode limitar a diversidade de representações no imaginário das crianças.

Um dos públicos da plataforma, é o infantil, o que reforça como a repetição desses padrões pode influenciar a forma como elas entendem relações de gênero. A naturalização de pequenas violências como interrupções constantes, invalidação de sentimentos ou controle de comportamento — pode contribuir para que esses gestos sejam reproduzidos no cotidiano, muitas vezes sem percepção crítica.

A discussão sobre a “novela das frutas” ganha um peso ainda maior quando se observa como determinados comportamentos associados ao machismo e à violência simbólica contra a mulher aparecem de forma naturalizada nas histórias. Embora o conteúdo seja apresentado como leve e humorístico, algumas dinâmicas entre os personagens reproduzem padrões problemáticos que já fazem parte da sociedade.

A psicóloga e professora Beatriz Carone, explica que o público infantil contribui para o sucesso, pois o cérebro da criança ainda está desenvolvimento, especialmente o córtex pré-frontal, responsável pela autorregulação e pelo controle de impulsos. “Quando em contato com conteúdos como esse, com cores vibrantes, músicas repetitivas, personagens simples e histórias que instigam curiosidade e desejo por continuidade, ativam circuitos de recompensa dopaminérgicos de forma intensa e previsível, e funciona quase como uma droga para o cérebro em formação” afirma a especialista.

A personagem Moranguete, por exemplo, frequentemente é colocada em situações em que sua aparência ou comportamento são julgados pelos outros personagens, especialmente em tom de brincadeira. Comentários sobre como ela deve agir, se vestir ou se comportar acabam reforçando uma lógica de controle sobre o corpo e as atitudes femininas. Em muitos episódios, esse tipo de fala não é problematizado pelo contrário, é tratado como algo comum, o que pode levar crianças a interpretarem essas atitudes como aceitáveis no convívio social.

Já a figura de Abacatudo, associada à força e imposição, por vezes reforça uma masculinidade baseada na dominância. Em situações de conflito, a resolução tende a vir pela autoridade ou pela força simbólica, e não pelo diálogo. Quando esse padrão é repetido, contribui para consolidar a ideia de que o poder masculino pode se sobrepor ao feminino.

A especialista detalha que as crianças acabam sendo expostas a esse tipo de conteúdo, pois são usadas como recurso de distração e contenção comportamental da criança pelos pais e responsáveis. “Enquanto na infância é importante que consigam explorar novas possibilidades e ferramentas emocionais, esse tipo de conteúdo limita e atrofia a capacidade cognitiva da criança de aprender a lidar com seus próprios sentimentos, dilemas e questões, ou seja, as estruturas mentais que a criança constrói sobre si mesma, sobre os outros e sobre o mundo ficam reféns da limitação que esse ambiente digital lhe oferece” explicou.

A profissional contextualiza que a infância é o período em que a criança busca por sentido e significado através da brincadeira, curiosidade, da novidade e do encontro com o diferente. Um ambiente algorítmico que fecha a criança em uma bolha de conteúdo homogêneo pode, silenciosamente, estreitar esse horizonte existencial desde muito cedo e amputar a realidade de desenvolvimento afetivo dessa criança.

Esse cenário reforça a importância da mediação de pais e educadores, que podem utilizar esses exemplos para discutir comportamentos, questionar estereótipos e estimular uma leitura mais crítica, transformando o entretenimento em ferramenta de aprendizado. “Não dá para deixar que esses conteúdos guiem nossa sociedade, isso exige acompanhamento, cuidado e atenção dos responsáveis por aqueles que podem estar os consumindo” afirma Beatriz Carone.

Fonte: Band.
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