A morte de Bianca Naufel Saliba, de 43 anos, após passar por três cirurgias estéticas no mesmo dia, em um hospital na zona sul de São Paulo, trouxe à tona um debate delicado —e muitas vezes subestimado— sobre os limites da chamada “cirurgia combinada”.
A paciente realizou lipoescultura, abdominoplastia e mastopexia em sequência, em uma mesma intervenção. Segundo o Boletim de Ocorrência, o procedimento levou cerca de 10h e foi concluído sem intercorrências aparentes, mas minutos após acordar da anestesia, ela apresentou uma piora súbita, com dificuldade respiratória. Mesmo após reanimação por cerca de 1h40, não resistiu.
O caso, registrado como morte suspeita, é investigado pela Polícia Civil, que aguarda laudos do Instituto Médico Legal (IML) para determinar a causa exata do óbito.
“Otimizar” tempo pode aumentar o risco
A realização de múltiplos procedimentos em uma única cirurgia não é incomum na cirurgia plástica moderna. A proposta, em geral, é reduzir o número de internações e concentrar o período de recuperação. Mas os cirurgiões plásticos Daniel Carli, do Hospital Moriah, e Luan Aguiar Ferretti reforçam que essa prática exige critérios rigorosos.
Para Carli, o problema não está necessariamente na quantidade de cirurgias, mas na soma dos fatores de risco. “Segurança precisa vir antes da conveniência. Não existe um número mágico de procedimentos que seja seguro para todos. O que define o limite é o perfil do paciente, o tempo cirúrgico, a agressão fisiológica e a estrutura hospitalar”, afirma.
Na mesma linha, o médico Luan Aguiar Ferretti destaca que cirurgias prolongadas — especialmente aquelas que ultrapassam seis a oito horas — já entram em uma zona de maior risco e, em muitos casos, deveriam ser divididas.
Complicações graves
Apesar de não serem consideradas comuns, complicações graves no pós-operatório imediato são amplamente descritas na literatura médica. Entre elas, estão justamente quadros semelhantes ao relatado no caso de Bianca.
Segundo os especialistas, a piora súbita com dificuldade respiratória pode estar associada a diferentes causas, como:
- tromboembolismo pulmonar (uma das principais preocupações);
- broncoaspiração;
- depressão respiratória por anestésicos;
- complicações cardíacas;
- embolia gordurosa;
- problemas ventilatórios decorrentes do tempo prolongado de cirurgia.
“O ponto crítico é que qualquer sinal respiratório após cirurgia estética nunca deve ser banalizado. Exige resposta imediata”, ressalta Carli.
Ferretti reforça que eventos como embolia pulmonar, muitas vezes ligados à trombose venosa, estão entre as principais causas de morte nesse tipo de procedimento, especialmente quando há múltiplas intervenções associadas.
Tempo cirúrgico e anestesia
Um dos elementos mais determinantes no risco é a duração da cirurgia. Quanto mais longo o procedimento, maior o impacto sobre o organismo.
Entre os efeitos estão:
- maior resposta inflamatória;
- aumento do risco de trombose;
- maior perda sanguínea;
- risco de infecções;
- complicações respiratórias associadas ao tempo de intubação.
“A anestesia é segura quando bem conduzida, mas o problema é o conjunto: tempo, dose, porte da cirurgia e condições do paciente”, explica Ferretti.
Perfil do paciente pode ser determinante
Outro ponto central — e muitas vezes decisivo — é a avaliação pré-operatória. Antes de qualquer cirurgia estética, especialmente quando há combinação de procedimentos, o paciente passa por uma triagem clínica detalhada que vai muito além de exames básicos.
Fatores como idade, índice de massa corporal (IMC), doenças pré-existentes e hábitos de vida, como tabagismo e sedentarismo, influenciam diretamente na capacidade do organismo de suportar o estresse cirúrgico e se recuperar no pós-operatório.
Na prática, essa avaliação envolve:
- histórico clínico completo, incluindo doenças anteriores e cirurgias já realizadas;
- avaliação cardiovascular e pulmonar, para medir o risco anestésico;
- exames laboratoriais, que verificam anemia, coagulação e função de órgãos;
- classificação de risco anestésico (ASA), usada para estimar a segurança do procedimento;
- estratificação de risco tromboembólico, essencial em cirurgias plásticas.
Condições específicas podem elevar significativamente o risco, sobretudo quando associadas a procedimentos longos e combinados. Entre elas:
Obesidade: aumenta o risco de complicações respiratórias, trombose e dificuldades na cicatrização. Além disso, pode prolongar o tempo cirúrgico e dificultar o manejo anestésico.
Histórico de trombose ou predisposição genética: pacientes com episódios prévios ou fatores hereditários têm maior chance de desenvolver tromboembolismo venoso, uma das complicações mais graves nesse tipo de cirurgia.
Doenças cardiovasculares: como hipertensão ou insuficiência cardíaca, que elevam o risco de instabilidade durante e após o procedimento.
Diabetes: interfere diretamente na cicatrização e aumenta o risco de infecções.
Apneia do sono: muitas vezes subdiagnosticada, pode agravar complicações respiratórias no pós-operatório, especialmente após anestesia geral.
Tabagismo: reduz a oxigenação dos tecidos, prejudica a cicatrização e eleva o risco de necrose e complicações pulmonares.
Além disso, o uso de hormônios (como anticoncepcionais), sedentarismo e até longos períodos de imobilização no pós-operatório também entram na conta de risco.
Segundo o cirurgião plástico Daniel Carli, o erro mais comum é tratar todos os pacientes como se tivessem o mesmo perfil de segurança.
“A decisão não pode ser baseada apenas no desejo estético. É uma análise clínica completa. Em alguns casos, o mais seguro é reduzir o número de procedimentos ou até contraindicar a cirurgia naquele momento”, afirma.
Já o médico Luan Aguiar Ferretti reforça que a indicação de cirurgias combinadas precisa considerar o conjunto de variáveis — e não apenas o procedimento em si.
“Não é só a cirurgia. São todas as condições pré-existentes do paciente que determinam o risco real”, explica.
Na avaliação médica, portanto, não existe uma decisão padrão. Dois pacientes com o mesmo objetivo estético podem receber recomendações completamente diferentes — justamente porque o fator mais importante não é o resultado esperado, mas a segurança durante todo o processo.
Protocolos existem e são essenciais
Especialistas destacam que há protocolos bem definidos para reduzir riscos, especialmente no pós-operatório imediato. Entre eles:
- monitorização contínua após a anestesia;
- vigilância respiratória e hemodinâmica;
- prevenção ativa de trombose (com medidas mecânicas e, em alguns casos, medicamentos);
- resposta rápida a sinais de deterioração clínica.
Ainda assim, a eficácia desses protocolos depende diretamente da estrutura hospitalar e da equipe envolvida.
Pressão por resultados rápidos preocupa
O caso também expõe um fenômeno crescente: a busca por resultados estéticos mais rápidos, com menos tempo de recuperação.
Segundo os médicos, essa demanda tem aumentado — impulsionada por rotinas intensas e pela pressão estética —, mas preocupa quando começa a influenciar decisões médicas.
“Procedimentos combinados não são, por si só, inadequados. O problema é quando passam a ser tratados como regra, e não como exceção bem indicada”, diz Carli.
Ferretti acrescenta que muitos pacientes optam por concentrar cirurgias para reduzir o tempo afastado do trabalho, o que pode levar à subestimação dos riscos.
Alerta
Embora a causa da morte de Bianca ainda dependa de confirmação pericial, o caso reacende um alerta importante: cirurgia estética, mesmo quando eletiva, não é isenta de riscos.
Para especialistas, episódios como esse não necessariamente indicam falhas isoladas, mas reforçam a necessidade de rigor absoluto no cumprimento de protocolos e na indicação dos procedimentos.
“Cirurgia estética deve ser sempre sinônimo de segurança. Quando esse princípio é relativizado, o risco aparece”, conclui Ferretti.