Os recentes episódios envolvendo o Banco Master e o Will Bank reacenderam um temor recorrente entre consumidores e investidores: afinal, existe o risco de uma “quebra em cadeia” no sistema financeiro brasileiro?
Especialistas ouvidos pelo Band.com.br apontam que, apesar da gravidade dos casos, não há hoje um risco sistêmico generalizado, mas sim problemas concentrados, ligados sobretudo a falhas de gestão, governança e apetite excessivo ao risco em instituições específicas.
Problema pontual ou sinal de fragilidade maior?
Para Hugo Garbe, professor do Centro de Ciências Sociais e Aplicadas da Universidade Presbiteriana Mackenzie, os episódios têm caráter predominantemente pontual. Ele lembra que o Banco Central decretou, em novembro de 2025, a liquidação extrajudicial de instituições do Conglomerado Master e aplicou o Regime de Administração Especial Temporária (RAET) ao Banco Master Múltiplo, medidas que indicam atuação direta da autoridade monetária.
Ainda assim, Garbe ressalta que os casos expõem fragilidades estruturais típicas dos mercados financeiros modernos, como problemas de governança, qualidade dos ativos, velocidade de captação via canais digitais e assimetria de informação para o público, além do papel central do Fundo Garantidor de Créditos (FGC).
Na mesma linha, Cleveland Prates, professor da FGV Direito SP, destaca que o risco sistêmico ocorre quando grandes instituições, fortemente interligadas, entram em colapso — o que não é o caso. “Estamos falando de instituições pequenas no contexto do sistema financeiro nacional, que não têm capacidade de contaminar todo o mercado”, afirma.
Já Jorge Ferreira, professor de Administração da ESPM, observa que os episódios revelam vulnerabilidades típicas de bancos médios, que costumam operar com captação mais cara, crescimento acelerado e maior apetite ao risco. “Isso não significa que o sistema financeiro brasileiro esteja frágil como um todo, mas aponta para um segmento que deve sofrer aperto regulatório”, avalia.
Existe risco de quebra em cadeia no Brasil?
Segundo os especialistas, o cenário atual é bastante diferente das grandes crises bancárias do passado, como a de 1929 ou a crise do subprime em 2008. Hoje, o Brasil conta com um arcabouço regulatório robusto, exigências elevadas de capital e instrumentos de intervenção mais sofisticados.
“O Banco Central brasileiro é considerado referência internacional em regulação prudencial”, afirma Prates. Ele lembra que o país passou bem pelos testes de estresse implementados após a crise de 2008, que simulam cenários extremos para avaliar a resistência das instituições financeiras.
Garbe reforça que, embora o risco de contágio nunca seja zero, os mecanismos atuais reduzem significativamente a chance de uma quebra em cadeia ampla. A atuação preventiva do Banco Central e a existência do FGC ajudam a conter pânico e proteger o funcionamento do sistema de pagamentos.
Bancos digitais e fintechs são mais arriscados?
Não necessariamente. Para os especialistas, o risco não está no rótulo “digital” ou “tradicional”, mas no modelo de negócios, na qualidade da gestão e no perfil de risco assumido.
Fintechs e bancos digitais podem ser mais vulneráveis quando crescem rápido demais, concentram funding em poucos produtos ou dependem de captação sensível ao humor do mercado. Por outro lado, algumas mantêm índices de capital elevados e gestão conservadora, o que reduz o risco de insolvência.
Prates chama atenção para o Índice de Basileia, principal termômetro da saúde financeira dos bancos. “Há fintechs com Basileia mais alto do que grandes bancos tradicionais, o que indica maior capacidade de absorver perdas”, explica.
O que o Índice de Basileia mede — e o que não mede
O Índice de Basileia avalia a relação entre o capital do banco e os riscos assumidos em crédito, mercado e operações. Quanto maior o índice, maior a capacidade de a instituição absorver prejuízos sem quebrar.
No entanto, Basileia alto não garante imunidade. “Ele reduz o risco de insolvência, mas não elimina riscos de liquidez, governança, fraudes ou corridas de depósitos”, alerta Garbe.
Outros fatores, como concentração de carteira, descasamento de prazos, qualidade da provisão e transparência, também precisam ser observados.
O papel do Banco Central e do FGC
Para os três especialistas, o Banco Central atua com um dos marcos regulatórios mais sólidos do mundo, embora nenhum regulador consiga eliminar totalmente o risco. O objetivo, segundo Garbe, é reduzir a probabilidade de colapsos, conter danos e organizar a resolução de instituições inviáveis com o menor custo social possível.
Já o Fundo Garantidor de Créditos protege depositantes até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ por instituição, com limite global de R$ 1 milhão em quatro anos. Em casos pontuais, o mecanismo funciona bem. Em um cenário extremo de múltiplas quebras relevantes, porém, a proteção tem limites.
Prates chama atenção para o chamado risco moral: instituições que oferecem retornos muito acima da média acabam transferindo o risco para o FGC — e, indiretamente, para todo o sistema. Por isso, ele defende contribuições maiores ao fundo por parte de bancos que assumem mais risco.
Sinais de alerta para o cliente comum
Os especialistas recomendam atenção a alguns sinais antes de investir ou manter recursos em uma instituição financeira:
- Rentabilidade muito acima da média em produtos simples, como CDBs;
- Concentração de recursos acima do limite do FGC em um único conglomerado;
- Notícias recorrentes sobre investigações, intervenções ou problemas de governança;
- Campanhas agressivas e contínuas de captação com prazos curtos;
- Falta de transparência ou mudanças bruscas nas regras;
- Confusão entre o que é banco, instituição de pagamento ou financeira.
“O mais importante é entender que tamanho ou digitalização não são garantias absolutas”, resume Ferreira. “O que protege o sistema e o consumidor é boa governança, gestão responsável do risco e supervisão eficaz.”
Por fim, os professores concluem que os casos do Banco Master e do Will Bank acendem alertas importantes, mas não indicam risco de colapso generalizado do sistema financeiro brasileiro. O cenário exige atenção, informação e diversificação por parte dos clientes — sem pânico.