Uma operação conduzida pelo Ministério Público contra a máfia dos combustíveis associada ao PCC revelou um mecanismo de lavagem de dinheiro que utilizava prêmios de loteria para dissimular a origem de recursos criminosos.
O esquema permitia transferir ganhos de apostas para contas empresariais ligadas ao grupo investigado, criando uma justificativa formal e de aparente legalidade para o patrimônio.
A dinâmica investigada pelos promotores baseava-se no redirecionamento de bilhetes premiados. Quando uma pessoa fazia uma aposta e o bilhete era sorteado, o valor do prêmio não era entregue ao apostador original. Em vez disso, o montante era transferido diretamente para a conta de uma empresa vinculada ao grupo investigado.
Dessa forma, a organização obtinha uma explicação formal para a entrada dos recursos, declarando-os como prêmios. De que maneira os apostadores premiados eram localizados pelo grupo é um ponto que ainda está sendo apurado pelas autoridades.
Transferências milionárias e delação no Banco Master
Nos documentos da investigação, destaca-se o caso de uma aposta atribuída a um indivíduo chamado Patrick. O prêmio resultante dessa aposta foi parar na conta da empresa Cactus Assessoria e Serviços, ligada ao empresário Antônio Carlos Freixo Júnior, conhecido como "Mineiro". Freixo é apontado como operador financeiro de Daniel Vorcaro e tornou-se delator na fraude do Banco Master.
Entre os anos de 2020 e 2025, os promotores identificaram 570 registros de prêmios, que somaram R$ 176 milhões. Nesses registros, Freixo constava como beneficiário porque os valores eram creditados diretamente em empresas ligadas a ele.
O Ministério Público ressalta que as loterias não fazem parte do suposto esquema e que os documentos não indicam que os prêmios recebidos tenham origem ilícita em si. A suspeita dos investigadores foi levantada pelo volume atípico das movimentações e pelo padrão identificado no fluxo financeiro.
Atualmente, os promotores buscam responder a perguntas fundamentais: quem fez as apostas, de onde veio o dinheiro para apostar e por qual razão o prêmio era transferido para a conta de uma empresa.
O formato investigado na Operação Crédito Oculto remete a um caso descoberto na década de 1990, no escândalo de corrupção dos "Anões do Orçamento". Na ocasião, o deputado João Alves foi acusado de envolvimento no desvio de verbas e tentou justificar a origem do seu dinheiro alegando ter ganho centenas de vezes na loteria.