Documentos e mensagens revelam que o deputado federal cassado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) exerceu um papel central na produção de “Dark Horse”, a cinebiografia de Jair Bolsonaro. A informação foi divulgada pelo site Intercept Brasil e confirmada pela Polícia Federal à Band.
Ao contrário do que o político havia afirmado na quinta-feira (14) em suas redes sociais, Eduardo não apenas cedeu direitos de imagem, mas atuou como produtor-executivo, cargo que lhe conferia amplos poderes sobre a gestão financeira e a busca por investidores para o projeto.
A polêmica em torno do orçamento do filme começou após vazarem áudios do ex-senador Flávio Bolsonaro (PL) cobrando dinheiro do banqueiro Daniel Vorcaro supostamente para a produção. Vorcaro está preso desde março sob suspeita de lavagem de dinheiro e corrupção.
Uma suspeita levantada após os áudios se tornarem públicos, foi de que Flávio tivesse repassado recursos de Vorcaro para o irmão Eduardo Bolsonaro, que vive desde o ano passado nos Estados Unidos e é considerado foragido pela Justiça brasileira. Os dois irmãos negaram essa destinação.
Me relacionei com Daniel Vorcaro estritamente no papel de um filho que buscava patrocínio de um empresário para o filme em homenagem ao pai. Não houve doação, favor, empréstimo pessoal, camaradagem ou vantagem política. Ele fez um investimento que previa retorno financeiro conforme o desempenho comercial da obra. --Flávio Bolsonaro
A contradição nas redes
Eduardo Bolsonaro publicou no Instagram que sua relação com o filme se limitava à cessão de direitos, negando qualquer cargo de gestão. No entanto, um contrato de produção assinado digitalmente por ele em 30 de janeiro de 2024 apresenta uma realidade distinta.
No documento, a empresa americana GoUp Entertainment figura como produtora, enquanto Eduardo Bolsonaro e o deputado federal Mario Frias (PL-SP) são listados como os chefes da produção-executiva. Entre as funções previstas, estavam o controle orçamentário e a "identificação de recursos de financiamento, incluindo créditos, incentivos fiscais e patrocínios".
O senador Flávio Bolsonaro (PL), pré-candidato à Presidência, também negou, na quinta-feira, que tenha repassado ao irmão qualquer quantia proveniente de Daniel Vorcaro e reiterou que sua participação no projeto de um filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) restringiu-se à tentativa de captar investimento privado.
"É falsa a insinuação de que recursos tenham sido destinados a Eduardo Bolsonaro: os aportes foram direcionados a um fundo específico da produção, com estrutura jurídica própria e fiscalização nos Estados Unidos", escreveu o senador em nota.
Recurso nos EUA
Além dos documentos contratuais, trocas de mensagens datadas de março de 2025 reforçam o envolvimento direto de Eduardo na engenharia financeira do longa. Em um diálogo com o empresário Thiago Miranda (intermediário do projeto), Eduardo demonstra preocupação com a logística de remessas internacionais:
O ideal seria haver os recursos já nos EUA. Que dos EUA para o EUA é tranquilo. Se a empresa brasileira a enviar aos EUA não tiver aquele grande orçamento que mencionamos como exemplo, será problemático”, escreveu o deputado, calculando que o envio fracionado de valores poderia tardar o cronograma em seis meses. --Eduardo Bolsonaro a Miranda
As mensagens foram encaminhadas por Miranda ao banqueiro Daniel Vorcaro, apontando Eduardo como o principal articulador para viabilizar o orçamento do filme, inicialmente intitulado "O Capitão do Povo".
O contrato define que a equipe de produção agiria em conjunto na preparação de documentação para investidores. Embora a defesa de Mario Frias negue que Eduardo tenha ocupado o cargo ou recebido valores de fundos de investimento, os registros assinados mostram que a estrutura jurídica previa o parlamentar como peça-chave nas "considerações estratégicas relacionadas ao financiamento".